25.4.12

A Poética Parnasiana por Olavo Bilac


A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

[Olavo Bilac, Tarde, 1919]

Domínio Público: acervo precioso

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24.4.12

Entre Mário e Oswald, escolhe o Sérgio:


“Eu gostaria de falar mais longamente sobre a personalidade do poeta que escreveu o Noturno de Belo Horizonte [poema de Mário de Andrade] e como só assim teria jeito pra dizer o que penso dele mais à vontade, pra dizer o que me parece bom e o que me parece mau em sua obra ― mau e sempre admirável, não há contradição aqui ―, resisto à tentação. Limito-me a dizer o indispensável: que os pontos fracos nas suas teorias estão quase todos onde elas coincidem com as idéias de Tristão de Athayde. Essa falha tem uma compensação nas estupendas tentativas para a nobilitação da fala brasileira. Repito entretanto que a sua atual atitude intelectualista me desagrada.
Nesse ponto prefiro homens como Oswald de Andrade, que é um dos sujeitos mais extraordinários do modernismo brasileiro; como Prudente de Moraes Neto; Couto de Barros e Antônio de Alcântara Machado. Acho que esses sobretudo representam o ponto de resistência necessário, indispensável contra as ideologias do construtivismo. Esses e alguns outros. Manuel Bandeira, por exemplo, que seria para mim o melhor poeta brasileiro se não existisse Mário de Andrade. E Ribeiro Couto que com Um homem na multidão acaba de publicar um dos três mais belos livros do modernismo brasileiro. Os outros dois são Losango cáqui e Pau-Brasil [livros da autoria de Mário e de Oswald de Andrade, respectivamente],”

[Trecho de "O lado oposto e outros lados" (1926), Sérgio Buarque de Holanda, em “O espírito e a letra. Estudos de crítica literária I, 1920-1947”. Organização, introdução e notas Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 224-228.]

As palavras da Política de Aristóteles 2

       "[...] Sócrates diz que um indicativo da total unidade de um Estado ocorre quando, numa cidade, todos os iguais dizem 'isto é meu' e 'isto não é meu'. Mas não é assim; a palavra 'todos' é empregada em dois sentidos: 'todos separadamente' e 'todos juntos'. Utilizada no primeiro sentido, demonstra melhor o que Sócrates pretendia; porque cada qual irá chamar todos de filho e todas de esposa; e falará da mesma maneira em relação à propriedade e o que mais estiver a seu alcance. Mas não será o modo como as pessoas falarão que lhes dará filhos e esposas em comum. Elas devem dizer isso juntas, não em separado; e o mesmo ocorre com respeito às posses. Desse modo, é um engano empregar a palavra 'todos', a qual, como muitas outras -- 'ambos', 'mais', 'igualmente' --, devem, pelo duplo sentido, levar a conclusões de raciocínio bastante duvidoso. Assim, embora esta pudesse ser uma situação admirável -- em que 'todos' dizem a mesma coisa --, é, num sentido, impossível, e em outro não conduz ao sentimento de solidariedade."

[Aristóteles, Política, livro II, 3]

23.4.12

As palavras da Política de Aristóteles

"O Estado que se tornar progressivemente uma unidade deixará de ser Estado. A pluralidade, neste caso, é natural; e quanto mais o Estado se afastar da pluralidade, em direção à unidade, menos Estado será e mais próximo estará de uma família, que por sua vez tornar-se-á um indivíduo. Digo isso porque a família, está claro, é mais unidade do que o Estado, assim como o indivíduo o é em relação à família. Assim, mesmo que fosse possível realizar essa unidade, ela não deveria ser feita, pois destruiria o Estado. Porque o Estado consiste não simplesmente de homens, mas de diferentes espécies de homens; não se pode fazer um Estado a partir de homens iguais."
[Aristóteles, Política, livro II, 2]

17.4.12

Retrato do Brasil e Macunaíma

Em resenha crítica sobre Retrato do Brasil (1928), de Paulo Prado, Oswald de Andrade esboçava um atalho de aproximação entre o "ensaio sobre a tristeza brasileira" e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade. Aliás não se deve esquecer que Mário dedicou as peripécias de seu "heroi sem nenhum caráter" a... Paulo Prado. Vejamos os trechos da resenha de Oswald que aproximam os dois livros de 1928:

       "O Retrato do Brasil é um livro que acordou muita gente. Percebeu-se através dele que o Brasil existe. Eu diria mesmo que o Retrato do Brasil é o glossário histórico de Macunaíma." (In: Prado, 2012, p. 169)

       "O Retrato do Brasil tem passagens lindas. As descrições das matas do Norte nos transportam para elas e para os momentos integrais da natureza bruta e sensual. Os quadros da vida de luxo de senhores, escravos, negras e índias, os séquitos, as procissões, os corpos nus sob a cambraia caseira, tudo isso bem documentado, bem pintado, bem vivido, é um hino que fura qualquer invólucros de falso pessimismo e a gente sente em cada página assim colorida o arrimo histórico de Macunaíma." (idem, p. 171)

Pode-se aprofundar um retrato de Macunaíma a partir desta aproximação...

[Mário de Andrade I (1922), de Anita Malfatti]

poesia moderna

"Há muitas pessoas que apreciam a expressão de sincera emoção na poesia; um número menor consegue apreciar a excelência técnica."
[T. S. Eliot]

15.4.12

Antologia Modernista I: Mário, Oswald e Manuel

disponível no endereço abaixo:
http://www.4shared.com/office/87v7dxGO/antologia_modernista_i.html





28.3.12

A crítica de Machado de Assis, por Paulo Franchetti

       [...]
       O artigo de Machado se organiza de modo a apontar os defeitos de O Primo Basílio a partir de dois ângulos principais. Por um lado, vê nessa obra uma realização de uma tendência literária que não merece a sua aprovação: o realismo de [Émile] Zola. Ou, como diríamos hoje, o Naturalismo. Por outro lado, considera que o livro tem defeitos de concepção e de realização, sejam na forma de construir as personagens, seja na forma de compor a trama, seja ainda na maneira de conduzir a narração.
       Machado inicia o texto constatando que o livro de Eça [de Queirós] fazia grande sucesso, e justifica esse sucesso apresentando duas razões. Por um lado, dizia o escritor brasileiro, era uma questão de moda: O Primo Basílio era a tradução, para o português, do receituário naturalista, que já fazia sucesso na França. Por outro lado, o gosto do público moderno estava muito rebaixado e a literatura grosseira do Naturalismo o atendia perfeitamente.
       [...]
       [...] De fato, é patente no texto um esforço de combate à narrativa naturalista, que Machado entende aqui como uma narrativa que favorece a descrição e a notação sensual em prejuízo da análise das paixões e da complicação lógica do enredo. A crítica de Machado se processa, assim, a partir de uma concepção de romance que é oposta à que ele identifica no texto de Eça e que ele mesmo tentava pôr em prática no seu Iaiá Garcia [romance de 1878]: o bom romance é o que investe na construção de personagens complexas, movidas por paixões e motivações morais que garantam o interesse dos desdobramentos da narrativa. O que Machado combate assim, em O Primo Basílio, não é apenas uma específica realização literária, mas também, tendo em mente o sucesso de público do livro de Eça, a possível influência do estilo naturalista sobre a jovem literatura brasileira. [...]
       [...]

[FRANCHETTI, Paulo. "O Primo Basílio". In: _______. Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Ateliê, 2007. pp. 143-145; a ilustração é charge de Rafael Bordalo Pinheiro, para o periódico ilustrado O Besouro, de 1878, e representa parte da repercussão de O Primo Basílio na imprensa brasileira.]

24.3.12

para relembrar um amigo: Ericson Pires

faz uma semana que a notícia chegou, absurda: o Ericson morreu! realmente absurda! como acreditar que aquela figura enérgica desapareceria assim, num quarto de hospital, sem um último passeio pela cidade que o constituia e um último abraço nos amigos desatentos. absurda, mas insistente em sua verdade inconsequente. pra fazer dançar um pouco a memória em luto, eis uma pequena composição do Ericson, retirado do seu livro cinema de garganta (azougue editorial, 2002).

papel reciclado

O poeta é um
catador

senões incrustados

peito que brilha

papelão e garrafas

nu mar
de palavras

23.3.12

Machado de Assis no espelho da crítica: Augusto Meyer

Segundo Alfredo Bosi, a crítica produzida entre 1930 e 1950 sobre a obra machadiana tem em Augusto Meyer (1902-1970) um de seus representates fundamentais. "Atento aos mínimos movimentos da escrita, Meyer desenhou o mapa interno da mina onde ainda hoje escavam os melhores leitores de Machado" (Bosi, 2002, p. 11). E, entre os textos críticos de Meyer, encontramos uma análise de "O espelho", conto fundamental do escritor carioca, estampado em Papéis avulsos, de 1882. Abaixo seguem alguns trechos dentre os mais instigantes dessa análise:

"Realidade? A si mesmo? Quando o narrador desce as escadas, fim do conto, as interrogações sobem na perplexidade do leitor. E não é para menos. 'O espelho' é um dos momentos mais vertiginosos na obra de Machado de Assis. O humorismo cáustico do princípio, a acrobacia machadiana de Jacobina aos expor a sua tese das duas almas, contrasta profundamente com a gravidade simples da história contada por ele. O próprio ambiente prepara essa impressão, pela sugestão visual de uma claridade dúbia, fantástica, a de um sonho vagamente sonhado por nós, na penumbra de outra vida" (Meyer, 1986, p. 209).
"Sim, pensando bem, Jacobina é isso mesmo: 'uma fantasia graduada em consciência'. A farda, a alma exterior, alma exterior, tomou conta do espírito. O homem se fez manequim agaloado e faceiro, sombra de si mesmo, paródia da verdadeira alma. Esta, coitada, está lá dentro, encolhida, abafada pela farda, sem voz ativa -- porém subsiste como a própria essência da vida que não se vê com os olhos da carne.
Ora, Jacobina somos nós. Botamos a farda e representamos uma paródia do nosso eu autêntico -- não na vida social apenas, na vida profunda do espírito, que anda quase sempre fardado. O imperativo do instinto vital se encarrega de fardar o espírito para que ele não se veja no espelho tal como é na verdade. Só existem as almas exteriores, bovarizadas, mascaradas, e para elas, que só navegam na sabedoria da superfície, é melhor não sondar a profundidade terrível do homem. quem tira a farda, quem tenta ver o que há além da fantasmagoria organizada em seu proveito pela inconsistência vital, sente a vertigem de si mesmo e de tudo, acaba falando sozinho diante do espelho, como o Alferes Jacobina" (idem, p. 210-211).



[referências bibliográficas: BOSI, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Publifolha, 2002;
MEYER, Augusto. Textos críticos. Seleção e introdução de João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 1986]