29.11.11

análise de "Leito de Folhas Verdes"

Segue abaixo trecho de análise de "Leito de Folhas Verdes", poema de Gonçalves Dias. O estudo é de Salete Valer, e está publicado em Mafuá, revista de literatura em meio digital da Universidade Federal de Santa Catarina. O texto completo pode ser acessado através do seguinte endereço: http://www.mafua.ufsc.br/numero08/ensaios/valer.htm

[...]
O Romantismo caracteriza-se pela inovação, ou seja, pelo desejo de criar uma literatura nacional, e para atingir esse objetivo, a linguagem que caracterizava a literatura, até então, sofre transformações. As transformações podem ser observadas principalmente nas construções da versificação dos poemas e nas construções sintáticas.  A sintaxe que até então era clássica e bem cuidada, com os românticos, passou a ser mais coloquial, comunicativa e simples e as  composições que eram de metro fixo deram lugar a novos  ritmos e variadas formas métricas, em outras palavras, uma linguagem com maior liberdade de expressão.
        No que diz respeito à estruturação da sonoridade do poema “Leito de Folhas verdes” a sua métrica se compõe em versos decassílabos com acentos tônicos regulares nas segunda/terceira, sextas e décimas sílabas, caracterizando, assim, o verso heróico. Essas características concordam  com as inovações próprias dessa escola, que contrariam a rigidez métrica e rítmica do classicismo. Assim, as inovações relacionadas a uma maior liberdade na estrutura do poema podem ser observadas pela presença de versos brancos e pela sonoridade. Ou seja,  contrariamente, à rigidez da rima clássica, a sonoridade nesse poema, marca-se pela presença de rimas internas:rimas por assonância (repetição de vogais) e rima por aliteração (repetição de consoantes), bem como a presença de recorrências por repetições de palavras, por repetições de sintagmas e repetições de versos.
A análise dos níveis gramaticais do poema aponta, inicialmente, que no nível lexical algumas das inovações do português brasileiro são visíveis na identificação de objetos e noções próprias à realidade local, ao clima, à fauna, à flora e no vocabulário. Isto é, o poema estrutura-se com vocabulários usuais, mas é enriquecido com algumas palavras mais específicas da língua indígena tais como arazóia, tamarindo, bogari, Jatir, tupã etc.
A recorrência de algumas palavras como flor, folha, luar, lua, sol, etc reforça, na narrativa, à descrição de um ambiente espacial de floresta relacionado ao povo indígena, apontando, especialmente, para os elementos da natureza tal como a lua e o sol, vocábulos esses que marcam nessa cultura o aspecto temporal, dia e noite.  Os vocábulos lábios, olhos, prece, mãos, amor direcionam para a imagem do “bom selvagem”, do “erótico”, e da “pureza feminina”.
O poema, no nível semântico, se serve de usos de metáforas ao relacionar o movimento da natureza, para marcar a passagem temporal da noite para o amanhecer como podemos observar nos versos (9) e (10) abaixo.

(9) Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
(10) Já solta o bogari mais doce aroma!

Assim, a imagem da noite é descrita pelo evento do desabrochar das flores noturnas que exalam um doce perfume.

O movimento da natureza também é uma metáfora para os sentimentos da personagem como podemos ver nos versos da estrofe (8):


(29) Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
(30) Lá solta o bogari mais doce aroma
(31) Também meu coração, como estas flores,
(32) Melhor perfume ao pé da noite exala!

Os versos presentes nessa estrofe representam uma metáfora dos sentimentos e das emoções do “eu poético”, tendo em vista que ao amanhecer, as flores que durante a noite exalavam um forte perfume, neste momento, seu perfume já não tem a mesma intensidade, ou seja, podemos comparar a intensidade do aroma noturno com os sentimentos da amada. Isto é, as esperanças que, durante a noite, fortaleciam seu coração estão se desfazendo, contrastando com as esperanças que ela nutria ainda durante a noite, momento em que seu coração se sentia mais esperançoso e forte, tal qual o perfume das flores.
         Outro nível gramatical a ser observado nesse poema diz respeito à sintaxe, que, apesar de refletir uma tentativa de liberdade lingüística e métrica característica das inovações dessa escola,  ainda apresenta certo estilo conservador na linguagem. Ou seja, o texto apresenta certa inversão de elementos da estrutura sintática, demonstrando, com isso, uma linguagem mais elaborada  assemelhando-se à forma mais clássica.

     (1) Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
(2) À voz do meu amor moves teus passos?
(3) Da noite a viração, movendo as folhas,
(4) Já nos cimos do bosque rumoreja.

Nessa estrofe a ordem dos constituintes está exposta de forma inversa se levarmos em conta a ordem do parâmetro do Português do Brasil (PB), ou seja,  a seleção  dos  elementos na sentença são canonicamente sujeito, verbo, complemento e posteriormente o adjunto adverbial e  nos sintagmas nominais a ordem nome- complemento ou  nome-adjunto. Observamos, assim, algumas inversões na ordem dos constituintes causando com isso, certa estranheza sintática, característica essa (hipérbatos) comum à escola clássica.
         De acordo com Simões & Theodoro Pereira (2005), a presença de uma forma mais clássica nos poemas românticos de Gonçalves Dias se deve ao fato de esse poeta ter tido uma formação clássica, ou seja, “tinha em conta os clássicos, vernáculos e latinos como fonte de expressão e construções primorosas”, conservou por isso, de certa forma, certo purismo, mas como já conhecia a língua brasileira “procura exprimir sua convicção acerca da união lingüística Luso-brasileira, sem perder-se da indiscutível necessidade de expressão individual para cada uma das literaturas”.
Outra característica relevante nesse poema, como podemos ver na estrofe (7), é a  presença  da  “idealização do eu feminino”  como marca própria da escola Romântica.

(25) Meus olhos outros olhos nunca viram,
(26) Não sentiram meus lábios outros lábios,
(27) Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
(28) A arazóia na cinta me apertaram.

Observamos, porém, que, diferentemente da literatura romântica européia, até então em voga e reproduzida no Brasil, na qual se enunciava um “eu feminino” urbano, o enunciado em análise, apresenta um novo foco. Isto é, através dos elementos lingüísticos presentes no poema, podemos depreender a temática do lírico amoroso indianista em que o “eu poético” é uma personagem feminina (puro e dócil), que está à espera de seu amor que partiu e ainda não voltou, em acordo com as personagens femininas românticas. Nesta narrativa, todavia, a personagem romântica vive na floresta, mas apesar das marcas da cultura e costumes indígenas, ela é descrita conforme as   relações do ambiente urbano, ou seja, mesmo ao estar descrevendo o relacionamento entre índios,  o autor cria para eles uma imagem que provavelmente  tem muita relação com o homem citadino.
         Dessa forma, pela análise dos elementos lingüísticos encontrados no enunciado do gênero poema “Leito de folhas verdes”, a enunciação aponta para um espaço físico específico das florestas tropicais e que as personagens enunciadas (o eu poético e Jatir) caracterizam uma idealização da cultura indígena brasileira justificando com isso, o objetivo dos poetas românticos em retratar uma realidade de cunho nacional, ou seja, a narração dos fatos ou paisagens nacionais, mas isso é feito de uma forma lírica idealizada como convém ao gênero literário poema relacionado a esse período literário brasileiro.
          Para finalizar, em termos gerais, podemos marcar aqui, a relação do autor brasileiro com a cultura Européia e, especialmente, a colaboração de um poeta romântico com o Estado no que diz respeito à abordagem da temática indianista e às narrativas através das quais se procura integrar o silvícola à nação. E, esse olhar do poeta sobre essa temática, também participa da construção de um imaginário do índio, esse elemento distanciado da cidade, desconhecido e, aqui, idealizado.

NOTAS

 Jatir: significa, em tupi, arpão de haste longa;
 arazóia: saia elaborada com pena de pássaros presa à cintura;
 tamarindo e bogari: flores noturnas que exalam doce perfume.

2. Quanto ao conceito de ritmo em relação a uma língua, percebe-se que há certa diferenciação na sua nomenclatura, pois, em algumas línguas como o inglês e o alemão o ritmo é marcado em pés, e não em sílabas poéticas como nas línguas neolatinas. Nas sílabas, o acento tônico corresponde às vogais longas, de modo que o ritmo se elabora efetivamente por uma alternância de longas e breves.

3. De acordo com Chociay (1974:17), os principais procedimentos funcionais são:  Elisão (supressão de fonema (s)  em qualquer ponto silábico (ex minh´alma)); Ampliação (processo de aumento de corpo silábico (ex.: feliz – felice)); Sinalefa (acomodação em uma mesma sílaba métrica de duas ou três vogais, ou seja, transforma  hiato vindo de palavras diferentes em ditondos (ex.:abre os)); Dialefa (opera uma separação normal de vogais, ou seja, vogais que estão separadas permanecem separadas, opondo-se, dessa forma, ao processo  da sinalefa , com  o objetivo de ampliar a sílaba métrica ( ex.: e  - os). Sinerese (dentro da mesma palavra um ditongo se transforma em um hiato (ex.: tu-a)); e Diérese (opera uma separação intravocabular, ou seja, dentro da mesma palavra ocorre a transformação de hiato em ditongo  (ex.: sau-da-de).


Referências bibliográficas:

 CANDIDO, Antonio. Na Sala de Aula: Caderno de Análise Literária. São Paulo: Ática,1985

______. O estudo analítico do poema. São Paulo: Humanitas Publicações-FFLCH-USP,1986.


CHOCIAY, Rogério. Teoria do verso. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1974.


DUARTE, Osvaldo & REIS, Célia Maria Domingues da Rocha. A construção rítmica em Leito de folhas verdes, de Gonçalves Dias. Acta Scientiarum, Maringá/PR. V. 22, no 1, P 66-74, 2000.


SIMÕES, Darcília & THEODORO PEREIRA, Juliana. Novos Estudos Estilísticos de I-Juca-Pirama (Incursões Semióticas). Rio de Janeiro: Dialogarts, 2005. P.208 www.dialogarts.com.br/jucapirama2005.pdf

                Poema :http://www.revista.agulha.nom.br/gdias02.html

27.11.11

ainda sobre Alencar

Apresentação da obra/vida de José de Alencar, em vídeo produzido pala TV Escola. Direção de Luiz Fernando Ramos.

video

O estilo de Iracema, por Machado de Assis

O estilo do livro é como a linguagem daqueles povos: imagens e ideias, agrestes e pitorescas, respirando ainda as auras da montanha, cintilam nas cento e cinquenta páginas da Iracema. Há, sem dúvida, superabundância de imagens, e o autor, com uma rara consciência literária, é o primeiro a reconhecer este defeito. O autor emendará, sem dúvida, a obra empregando neste ponto uma conveniente sobriedade. O excesso, porém, se pede a revisão da obra, prova em favor da poesia americana, confirmando ao mesmo tempo o talento original e fecundo do autor. Do valor das imagens e comparações, só se pode julgar lendo livro, e para ele enviamos os leitores estudiosos.

[Machado de Assis. In: Alencar, José de. Iracema: lenda do Ceará. Biografia, introdução e notas
de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997]

{para conferir texto completo, ver http://pt.wikisource.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Alencar:_Iracema}

Sobre o uso do símile em Iracema

[...]
Qualquer leitor mais atento notará que o símile, isto é, a comparação, é abundantemente usado; alguém, dispondo de pendores estatísticos, poderia levantar, desde logo, o número assoberbante de símiles em relação às outras figuras, não só de comparação, como seja a metáfora, ou, ainda, por justaposição, a metonímia, mas em relação, também, a figuras de qualquer espécie. Será bom, por isso, que nos detenhamos um pouco sobre os símiles.
A primeira observação a fazer é a raridade das comparações simples do tipo “passa como a flecha”. Na verdade a comparação se prolonga, várias vezes se transforma em alegoria. Tomemos, ao acaso, um exemplo em cada um dos três primeiros capítulos: “a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo” (1); “o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva” (2); “então seu olhar como o do tigre, afeito às trevas, conheceu Iracema” (3). Note-se, no primeiro, as asas do condor que é negro como as nuvens tempestuosas, as asas cujo aceno sugere os ventos ainda não desencadeados; o “fosca”, reproduzindo bem a luz baça do céu de tempestade, e, afinal, o oceano que se vai tornar perigoso durante a tormenta, desde logo denominado “abismo”. No segundo caso, a delicadeza do símile começa naquele “aljôfar” metafórico, sugerindo pérolas ou diamantes, e se prolonga no verbo “roreja” que antecipa a imagem da mangaba coberta de orvalho, rosada, que é sinal de amadurecimento e subentende a doçura extrema, que é da mangaba e é de Iracema. No terceiro, a idéia de tigre confere a Araquém não só o olhar felino, perspícuo na treva, mas atributos de coragem altiva que irá demonstrar mais tarde. Se o leitor acompanhou com interesse este comentário, e deseja um exemplo de símiles que se prolongam em alegorias, pode ir ao capítulo 27, nos parágrafos em que Martim é comparado ao imbu; ou ao fim dos capítulos seguintes, quando se fala do jacarandá. São duas entre várias.
[...]

(In: Alencar, José de. Iracema: lenda do Ceará. Biografia, introdução e notas
por M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997)
[ilustração: Iracema (1881), óleo de José Maria de Medeiros]