27.9.13

Gustave Courbet: para pensar o realismo e o naturalismo

Gustave Courbet (1819-1877) já compareceu neste picadeiro em postagem do ano passado, como pintor importante para a configuração da estética realista e de seus combates. Seguem mais imagens do pintor francês, que escandalizou o público parisiense com seu quadro L'origine du monde, de 1866. Courbet é considerado o inventor da arte moderna, "pelo fato de dirigir-se diretamente ao público, menosprezando o poder legitimador dos poderes acadêmicos", como afirma Annateresa Fabris (ver postagem sobre Courbet anterior a essa). Seguem algumas imagens do pintor realista.




Autorretrato

Retrato de Baudelaire





Cortadores de pedras



Mulheres peneirando trigo



O sono


26.9.13

Sertão, Sertões



Sertão, Sertões (2012), documentário de Sérgio Resende. Mais um filme realizado a partir da obra de Euclides da Cunha, do pensamento que encontramos em Os sertões. Euclides e Guimarães Rosa, numa costura por vezes mal cosida. Vale pelos personagens, principalmente pelo Abdoral, cearense morador da Rocinha, no Rio de Janeiro. Disponível no seguinte endereço:

http://www.youtube.com/watch?v=8abo-r1UH9w



25.9.13

Doses de Caminha


Não, não são doses de caninha, ainda não. É do Adolfo que falo, o das Cartas literárias (1895), o Adolfo Caminha, renomado por seus romances de maior sucesso nacional, A normalista e Bom-Crioulo. Escritor combativo e rancoroso, em boa parte de sua produção se pode perceber o intuito de atacar, de posicionar-se contra um inimigo visado no momento. Em A normalista, era contra a burguesia fortalezense que Caminha se arma; no Bom-Crioulo, o ataque franco se dirige à Marinha do Brasil. E nas Cartas literárias, que reúnem artigos críticos do escritor cearense, não deixaremos de encontrar o mesmo espírito combativo, por vezes se arriscando na avaliação da literatura que lhe era contemporânea, o que carrega o perigo iminente da parcialidade
e do julgamento apressado.
Mas queria aqui era reproduzir trechos das Cartas literárias que tragam doses sumárias dessa percepção crítica de Caminha diante de escritores importantes para a literatura brasileira do final do século XIX. E a primeira dose representa a ressalva que Caminha sustentava diante do simbolismo,
narrando-nos um suposto diálogo, saboroso em seus termos. Vamos ao trecho:



       Há dias ouvi de um bardo conhecido os seguintes conceitos que me ficaram
a martelar o cérebro com uma insistência medonha. Dizia convictamente o ilustre nefelibata: -- Zola é um escritor como qualquer outro; nunca o li, mas tenho certeza de que não é um artista. Eu não trocaria um só dos meus versos por toda a obra dele.
       -- Não diga semelhante cousa!...
       -- Por que não hei de dizer, se, no meu entender, todo artista deve ignorar a ciência, limitando-se única e exclusivamente a dizer o que sente e o que pensa, sem consultar ninguém?
       E acrescentou:
       -- Eu, por mim, não invejo a sabedoria dos que estudam. Tenho talento, admiro o belo na natureza, e isto me basta para ser um artista superior...
       Mais um simbolista, gaguejei com os meus botões, e fiquei a pensar nas palavras do poeta.
(Caminha, Adolfo. Cartas literárias. Fortaleza: UFC, 1999, p.21-2)


Sente-se o travo maldoso nas palavras de Caminhas, mas... fiquei pensando se inda hoje não encontramos por aí poetas como o nefelibata acima. Peut-être...
Mais doses de Caminha serão servidas adiante. À nossa saúde!

24.9.13

do teatro modernista




Acabo de receber Adão, Eva e outros membros da família, peça em 4 atos de Alvaro Moreyra, escritor que participou dos combates modernistas, criador do "Teatro de Brinquedo". É aquisição para servir ao grupo de estudos sobre teatro e literatura vinculado à monitoria de Literatura Brasileira III, já anunciado neste picadeiro, a ser iniciado no dia 2 de outubro. Brevemente anunciarei mais e necessárias informações.

23.9.13

No teatro de Coelho Netto...

Essa é pra falar um pouco de Coelho Neto, de sua caracterização como escritor pré-modernista e de seu teatro etc. Venho da leitura de "Coelho Neto: as duas faces do espelho", de Herman Lima, um dos textos da Introdução Geral do volume I da Obra seleta, da editora José Aguilar, em três volumes (1958). Chama a atenção o fato de Herman Lima voltar constantemente à defesa do autor de Rei Negro, escritor que foi ferozmente atacado por muitos dos modernistas, e creio que com razão. O seu "cabedal de helenismo", como Herman Lima refere o acentuado gosto de Coelho Neto pelo exotismo da antiguidade, enche páginas e páginas do escritor maranhense, muitas vezes sintoma de um hedonismo literário insuportável a sensibilidades do século XX. O próprio Coelho Neto diria em um texto de reminiscências: "Amo o antigo e esse entranhado amor faz com que eu acredite na metempsicose. Eu fui grego, pelejei nas Termópilas...". Ao ler alguns contemporâneos de Coelho Neto, como Euclides da Cunha ou Lima Barreto, tão diversos entre si, passamos a compreender a necessidade de defesa que Herman Lima expressa no seu texto de apresentação daquele que um sátiro modernista chamaria não de Coelho Neto, mas de "Coelho Avô".
E quanto ao teatro? Vejamos o que diz o mesmo Herman Lima, que comenta depois de transcrever trecho do drama A Muralha, que não me darei ao trabalho de reproduzir aqui:

"É o que há de menos teatro, sem dúvida. A propósito dessa particularidade, ouvi certa vez de um acadêmico, teatrólogo dos de mais êxito nos passados trinta anos, que "no teatro de Coelho Netto não acontece nada". A observação, quando não seja rigorosamente exata, nem por isso deixa de ter muita aplicação, no que se refere a muitas de suas peças. Outras, entretanto, como é em particular o caso de Quebranto -- um grande êxito no seu tempo -- e Nuvem, realmente muito vivas, espirituosas, movimentadas, e capazes de suportar qualquer encenação moderna, indicam sem nenhuma dúvida o dramaturgo e o comediógrafo que havia também no criador de tantas obras admiráveis no romance e no conto. (p. LXXIV)

É mais um trecho de defesa, na tentativa de salvar alguma parcela da numerosíssima produção literária de Coelho Neto.
Mas venho também anunciar que no dia 2 de outubro (com horário ainda por definir), começam os encontros do grupo de estudos vinculado à monitoria de Literatura Brasileira III, em que leremos alguma coisa do prolífico escritor maranhense, assim como de outros escritores mais interessantes e mais vivos, como é o caso de João do Rio. O grupo tem o objetivo de promover leituras de textos teatrais produzidos por escritores relevantes do período estudado nas aulas da disciplina, que focaliza o período pré-modernista e modernista. Ainda esta semana voltarei a este picadeiro com informações mais exatas sobre o grupo, indicando horário e local dos encontros. Por enquanto fiquem sabendo que eles acontecerão sempre às quartas-feiras, e que com os textos dramatúrgicos pretenderemos perceber nuances e fundamentos da vida literária e da produção artística das três primeiras décadas do século XX. Evoé!

22.9.13

Baudelaire & cia. no modernismo brasileiro

Rubens Borba de Moraes foi bibliófilo, bibliógrafo, historiador e pesquisador, tendo sido um dos organizadores da Semana de Arte Moderna. Em 1924, publicou Domingo dos séculos, libelo de divulgação de ideias modernistas. Na edição fac-similada publicada em 2001, José Mindlin ressalta faceta menos conhecida de Moraes, renomado principalmente por suas pesquisas bibliográficas, "o Rubens ser humano, que surge neste livro, irreverente, brincalhão, conversador, incansável, esfuziante de paradoxos e ideias surpreendentes, dotado de raro senso de humor, mas já demonstrando, aos vinte e poucos anos, uma sólida cultura literária e artística, pois já conhecia Proust no início dos anos 20 (...), já tinha lido Bergson, e já demonstrou ter sabido ainda tão jovem, apreciar devidamente a obra de Rimbaud. Não são coisas comuns". Eis um trecho do livro, que expressa um pouco do contato dos modernistas brasileiros com o simbolistas franceses:


    "Baudelaire foi o primeiro poeta que, depois dos românticos, nos trouxe novas sensações. Mas Baudelaire conservou a forma clássica, foi um clássico.
     O grande inovador de formas e sensações, o pai da poesia moderna foi Rimbaud.
      Há, do ponto de vista crítico, dois tipos de escritores: aqueles cuja vida precisamos conhecer para estudar a obra e aqueles cuja vida nenhuma relação tem com a obra. Machado de Assis pertence à segunda categoria. De fato, qual foi a influência de sua vidinha arroz com feijão, de funcionário exemplar, sobre sua maravilhosa carreira. Rimbaud pertence à segunda categoria."

(Moraes, Rubens Borba de. Domingo dos séculos. Edição fac-similada.
São Paulo: Imprensa Oficial, 2001, p. 41-2)

18.9.13

Literatura Fundamental: programa da UNIVESP TV

http://univesptv.cmais.com.br/literatura-fundamental

Esse é o link do programa da UNIVESP TV dedicado aos clássicos fundamentais da literatura mundial, o Literatura Fundamental. São programas de aproximadamente trinta minutas cada um, tratando de títulos os mais diversos, indo da Ilíada a Esperando Godot.
Abaixo um dos programas, o dedicado a Madame Bovary, de Gustave Flaubert, que é comentado pela professora e pesquisadora
Verônica Galindez-Jorge, da USP.
Vale conferir.


video

17.9.13

Literatura Brasileira III: romances para seminários

Eis os romances que serão lidos e comentados em seminário, que acontecerão ao final do semestre:

1. Macunaíma, de Mário de Andrade
2. Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade
3. O Quinze, de Rachel de Queiroz
4. João Miguel, de Rachel de Queiroz
5. Jubiabá, de Jorge Amado
6. Capitães da Areia, de Jorge Amado
Bandeira quando preparava seu seminário.
7. São Bernardo, de Graciliano Ramos
8. Angústia, de Graciliano Ramos
9. Moleque Ricardo, de José Lins do Rego
10. Fogo Morto, de José Lins do Rego

Literatura Brrasileira II: romances para seminários

Eis os romances que serão estudados e comentados em seminários, que acontecerão ao final do semestre:

1. Quincas Borba, de Machado de Assis
2. Dom Casmurro, de Machado de Assis
3. O mulato, de Aluísio Azevedo
4. O cortiço, de Aluísio Azevedo
ilustração de Raul Pompéia
5. O Ateneu, de Raul Pompéia
6. A normalista,
  de Adolfo Caminha
7. Bom-Crioulo,
   de Adolfo Caminha
8. Dona Guidinha do Poço,
     de Oliveira Paiva

O Expressionismo dos Anjos

Saí à procura de reproduções de imagens (pinturas e gravuras) expressionistas para relacionar com a poesia de Augusto dos Anjos. E me impressionou a grande quantidade de imagens que parecem projetar muitos dos quadros tenebrosos que os versos  do poeta paraibano, o autor do Eu (1912), nos evoca. Somente na página dedicada a obra de Oswaldo Goeldi da Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Plásticas, são muitas as imagens que se relacionam com o universo cosmo-agônico de Augusto dos Anjos, para relembrar a expressão crítica de Lúcia Helena. Vejamos três imagens, de três importantes artistas para a história das artes plásticas de vanguarda: primeiramente Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês precursor do expressionismo alemão, visionário de ambientações tão próximas ao universo do poeta paraibano; o já referido Oswaldo Goeldi (1895-1961), importante gravador, desenhista e ilustrador brasileiro; e Anita Mafaltti (1889-1964), pintora fundamental do movimento modernista no Brasil, considerada por Mário da Silva Brito "o estopim do modernismo".


O Grito (1893), de Edvard Munch: "Recife. Ponte Buarque de Macedo. / Eu, indo em direção à casa do Agra, / Assombrado com a minha sombra magra,/ Pensava no Destino, e tinha medo!" (versos iniciais de "As Cismas do Destino").





A Sonâmbula, de Oswaldo Goeldi: evocações de "O Lázaro da Pátria".




O Poeta (1945), de Anita Malfatti. Não tenho informação de quem serviu de modelo a este retrato, mas talvez se aproxime do aspecto do ator do Eu.

16.9.13

Charles Baudelaire por Eduardo Guimaraens



Túmulo de Baudelaire

                                                     Um anjo, que possui uma espada de chama,
                                                     hirto e pálido, à fronte um halo virginal,
                                                     guarda o Túmulo, junto ao mármore imortal,
                                                     a que o Poeta desceu, cego de luz e lama.

                                                     Outro, que às mãos desfralda o ardor de uma auriflama,
                                                     olha, cismando, o azul profundo como o mal;
                                                     e Lúcifer, enfim, magnífico e fatal,
                                                     tem à boca a revolta em que a blasfêmia clama.

                                                     Entre a aridez da terra e a solidão noturna,
                                                     fundo abismo, do espaço ao lúgubre esplendor,
                                                     fendem-se do Desejo as largas fauces de urna.

                                                     E as Danaides, de aspecto envelhecido e eterno,
                                                     tentam encher em vão esse tonel de horror!
                                                     Ora, lá dentro, o Céu! Uiva, lá dentro, o Inferno!



Eduardo Gaspar da Costa Guimaraens (1892-1928) nasceu em Porto Alegre, onde passou a maior parte de sua vida. Esteve no Rio de Janeiro entre 1912 e 1913, colaborou com periódicos como Fon-Fon!. Retornou à cidade natal para assumir o cargo de auxiliar técnico da Biblioteca local. Imprimiu no Rio sua primeira e mais importante obra, A Divina Quimera, em 1916. Na ocasião, estudou o sistema de organização da Biblioteca Nacional e colaborou na imprensa. Merece destaque sua atividade como tradutor, tendo sido considerado o responsável pela melhor tradução de Baudelaire no Brasil. Também traduziu Verlaine, o Canto Quinto da Divina Comédia (de Dante Alighieri), Heine e Tagore. Eduardo Guimaraens é o mais cosmopolita poeta simbolista brasileiro, em um movimento para o qual cor local e elemento específico tiveram pouco valor. Sua poesia extremamente musical e Harmoniosa dialoga diretamente com figuras de relevo como D'Annunzio, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Verlaine, Maeterlinck, Mallarmé, Rimbaud, Eugênio de Castro e, acima de todos, Dante. Publicou, também, Caminho da Vida (1908). Em 1944, Mansueto Bernardi organizou A Divina Quimera, contendo, além da obra título, outros cinco livros inéditos.
[Texto retirado da Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. Organização, notas,  prefácio e fixação de notas de Francini Ricieri. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007, p. 110]

I ENELF

Começa quarta-feira, dia 18 de setembro, o I Encontro Nacional de Estética, Literatura e Filosofia, no Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará. A programação completa encontra-se no site do evento: http://www.enelf.com.br/