24.4.14

"Tarde romântica", de Alberto de Oliveira

O banho de Atalanta (1850), de Jean-Jacques Pradier.
Eis mais um belo poema parnasiano em que exulta a "carne sensual". Mário de Andrade, comentando a poesia de Olavo Bilac, fala de sua acentuada "sensualidade", que chega " a ser cinematográfica". No autor das Canções românticas, este aspecto está presente, ainda que insistente demarcado pelas referências clássicas. Destacam-se na leitura do poema a luz incidente, as cores, os aromas, as sugestões tácteis, a própria "carne sensual" enfim. É surpreendente a presença constante da sinestesia, como a que aparece logo no segundo verso do poema, conjugando-se o elemento tátil ("crespo") ao visual ("transparente"): esta figura não é característica do Parnasianismo, mas da poesia simbolista. Boa leitura.






Tarde romântica


Obliquamente o sol, em púrpuras velado,
Fere com um beijo morno o crespo transparente
E aos hálitos da luz o tépido ambiente
Envolve-se num céu prismático e doirado.

Trescala o incenso, a mirra, o cravo recendente
Nas jarras orientais; então do cortinado,
Medrosa, abrindo os véus, num gesto namorado,
Ei-la a Bacante nua! a Sílfide ridente!

Faz-se agora, talvez, como um mistério estranho...
A carne sensual, refrigerada ao banho,
Toma os crivos, a renda, os folhos, o cetim;

Enquanto n´água fresca e láctea e perfumada,
O róseo sabonete, a flor purpureada,
Desbrocha entr'alva espuma a ponta de carmim.


                                               [Alberto de Oliveira. Canções românticas, 1878]



Arthur Oliveira, Parnasse Contemporain e as Canções românticas: Alberto de Oliveira




                A influência de Arthur de Oliveira (1851-1882) foi larga e extensa sobre os poetas "novos" do Brasil, a partir de 1877. Embora não tenha deixado obra perdurável, "le père de la foudre" trouxe de Paris as novidades literárias e portanto o Parnasiansmo, com o culto de Théophille Gautier, Leconte de Lisle, Banville, Sully-Prudhomme e outros poetas, que ele lia e difundia entre os jovens da época. É o que afirma Alberto de Oliveira e é o que confirma o fato de a primeira poesia das Canções românticas (1878) do próprio Alberto, dedicada a Arthur de Oliveira, pode ser tomada como a primeira mostra do Parnasianismo, em nosso meio. O tema de "Aparição nas Águas" — assimilação de uma banhista a Vênus, — apesar da imprecisão vocabular com que ainda lutava Alberto, é, pelo exotismo, pela intenção plástica, pela "arte pela arte" que reponta das estrofes, uma antecipação parnasiana do poeta. É o que parecem certificar estes excertos:

Vênus, a ideal pagã que a velha Grécia um dia
Viu esplêndida erguer-se à branca flor da espuma,
                      — Cisne do mar Iônio,
                      Desvendado da bruma,
Visão, filha talvez da ardente fantasia
                      De um cérebro de deus;

Vênus, quando eu te vejo a resvalar tão pura
                      Do largo oceano à flor,
Das águas verde-azuis na úmida frescura,
                      Vem dos prístinos céus,
                      Vem da Grécia, que é morta,
Abre do azul a misteriosa porta
E em ti revive, ó pérola do Amor.

[...]

(Ramos, Péricles E. da Silva. "A renovação parnasiana na poesia".
In: Coutinho, Afrânio. A literatura no Brasil, vol. 4, p. 108)



22.4.14

heroi de ontem: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes


A Estátua do Alferes


Eu sou o supremo herói.
Choquei a revolução...
Há mais de cem anos guardo
No meu ventre generoso
Uma turma de poetas
Que vivem o dia inteirinho
Tangendo as cordas da lira,
Em vez de atirarem bombas
No marquês de Barbacena
E no rei de Portugal.
Quem dorme mais é Dirceu.
No meu corpo cabe tudo.
Cabe passado e presente,
Mais do que tudo o futuro.
Senadores, deputados,
Se arrancham na minha sombra,
E outros, dentro de mim.
Se eu não tivesse sofrido
— Por iniciativa própria —
Eles nunca poderiam
Viver nesta pagodeira.
Sou como o cavalo triano,
Aqui dentro cabe o mundo,
O Avô da farra sou eu.

[Murilo Mendes. História do Brasil, 1932]


15.4.14

Mais de Pauliceia Desvairada por Telê Ancona Lopez







Eis mais uma participação especial de Telê Ancona Lopez sobre a poesia de Pauliceia Desvairada, desta vez lendo o poema "Paisagem No 1". Confira no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=tVydGfMZ71g


13.4.14

Introdução ao estudo de Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade

Telê Ancona Lopez fala sumariamente sobre Pauliceia Desvairada,
em suas palavras "livro-chave do modernismo brasileiro". Poucas palavras, mas de uma precisão reveladora. Finaliza o vídeo a leitura de "Inspiração",
o poema que abre o livro, por Telê.
Aprecie no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=8tKb5LAetT4

Cinema modernista: Metrópolis (1927)


Assistam ao clássico de Fritz Lang, Metrópolis, de 1927. Esta não é uma versão completa, mas traz legendas e tem boa qualidade de imagem e de som. Cinema é a maior diversão, como se dizia nas salas de exibição de antigamente. Vale também pela figuração de certa mentalidade modernista.




12.4.14

Parnasianos: para entender a poesia moderna





            A leitura de poemas é sempre insubstituível para a percepção/apreensão de sua estrutura rítmica (tenham eles versos ou não). Contudo, certos textos teóricos nos ajudam a penetrar nesse universo tão estranho e instigante — a palavra poética.

            No Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos (...), encontra-se, no Brasil, uma primeira teoria do verso e suas possibilidades de composição: métrica − ritmo − rima. Não se pode compreender a poesia moderna sem que se conheça aquela forma tradicional e fixa.

            [...]


(Pignatari, Décio. O que é comunicação poética. 8a ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005, p. 63)




O trecho acima destaca a importância do conhecimento da poesia e da poética tradicionais para a compreensão da poesia moderna. O Tratado de Versificação referido por Décio Pignatari tem entre seus autores Olavo Bilac, que foi certamente o mais popular dos poetas que formavam a chamada "tríade parnasiana" (ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia). Trata-se, portanto, de uma teoria parnasiana do verso a que se encontra no dito Tratado.

Mais ênfase ganha a observação acima reproduzida por ter sido escrita por Décio Pignatari, poeta fundamental da Poesia Concreta no Brasil (formando com Augusto e Haroldo de Campos outra tríade, na outra ponta da evolução da poesia brasileira, a tríade concretista).

Duas leituras essenciais, portanto, para o estudo da poesia no Brasil: o Tratado, de Bilac e Passos, e O que é comunicação poética, pequeno e valioso estudo de Décio Pignatari.

Acesse os livros relacionados nos links abaixo:
http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=8498
http://pt.scribd.com/doc/51917455/PIGNATARI-Decio-O-Que-e-Comunicacao-Poetica