anotações sobre literatura, notas de aula, reflexos da cultura e a prática culta da vida
12.12.11
Leituras do Naturalismo
enquanto não chegam as férias...
3.12.11
Literatura Brasileira I: sobre o conteúdo da AF
27.11.11
ainda sobre Alencar
O estilo de Iracema, por Machado de Assis
de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997]
{para conferir texto completo, ver http://pt.wikisource.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Alencar:_Iracema}
Sobre o uso do símile em Iracema

Qualquer leitor mais atento notará que o símile, isto é, a comparação, é abundantemente usado; alguém, dispondo de pendores estatísticos, poderia levantar, desde logo, o número assoberbante de símiles em relação às outras figuras, não só de comparação, como seja a metáfora, ou, ainda, por justaposição, a metonímia, mas em relação, também, a figuras de qualquer espécie. Será bom, por isso, que nos detenhamos um pouco sobre os símiles.
A primeira observação a fazer é a raridade das comparações simples do tipo “passa como a flecha”. Na verdade a comparação se prolonga, várias vezes se transforma em alegoria. Tomemos, ao acaso, um exemplo em cada um dos três primeiros capítulos: “a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo” (1); “o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva” (2); “então seu olhar como o do tigre, afeito às trevas, conheceu Iracema” (3). Note-se, no primeiro, as asas do condor que é negro como as nuvens tempestuosas, as asas cujo aceno sugere os ventos ainda não desencadeados; o “fosca”, reproduzindo bem a luz baça do céu de tempestade, e, afinal, o oceano que se vai tornar perigoso durante a tormenta, desde logo denominado “abismo”. No segundo caso, a delicadeza do símile começa naquele “aljôfar” metafórico, sugerindo pérolas ou diamantes, e se prolonga no verbo “roreja” que antecipa a imagem da mangaba coberta de orvalho, rosada, que é sinal de amadurecimento e subentende a doçura extrema, que é da mangaba e é de Iracema. No terceiro, a idéia de tigre confere a Araquém não só o olhar felino, perspícuo na treva, mas atributos de coragem altiva que irá demonstrar mais tarde. Se o leitor acompanhou com interesse este comentário, e deseja um exemplo de símiles que se prolongam em alegorias, pode ir ao capítulo 27, nos parágrafos em que Martim é comparado ao imbu; ou ao fim dos capítulos seguintes, quando se fala do jacarandá. São duas entre várias.
(In: Alencar, José de. Iracema: lenda do Ceará. Biografia, introdução e notas
19.10.11
Literatura Brasileira IV: avaliação complementar
Universidade Federal do Ceará
Centro de Humanidades – Curso de Letras – Departamento de Literatura
Literatura Brasileira IV – Professor: Marcelo Magalhães – Avaliação complementar
1. Leia o trecho abaixo, decalcado do “Manifesto neoconcreto”, e explique qual a divergência fundamental, nele sugerida, entre os “poetas concretos racionalistas” e a poesia neoconcreta. Fundamente sua resposta com recortes do trecho apresentado e do “plano piloto da poesia concreta” (http://www.poesiaconcreta.com/).
[...] Os poetas concretos racionalistas também puseram como ideal de sua arte a imitação da máquina. Também para eles o espaço e o tempo não são mais que relações exteriores entre palavras-objeto. Ora, se assim é, a página se reduz a um espaço gráfico e a palavra a um elemento desse espaço. Como na pintura, o visual aqui se reduz ao ótico e o poema não ultrapassa a dimensão gráfica. A poesia neoconcreta rejeita tais noções espúrias e, fiel à natureza mesma da linguagem, afirma o poema como um ser temporal. No tempo e não no espaço a palavra desdobra a sua complexa natureza significativa. A página na poesia neoconcreta é a espacialização do tempo verbal: é pausa, silêncio, tempo. Não se trata, evidentemente, de voltar ao conceito de tempo da poesia discursiva, porque enquanto nesta a linguagem flui em sucessão, na poesia neoconcreta a linguagem se abre em duração. Conseqüentemente, ao contrário do concretismo racionalista, que toma a palavra como objeto e a transforma em mero final ótico, a poesia neoconcreta devolve-a à sua condição de “verbo”, isto é, de modo humano de representação do real. Na poesia neoconcreta a linguagem não escorre: dura.
[...]
(Gullar, Ferreira. “Manifesto neoconcreto”, 1959)
2. Leia o trecho que segue e, utilizando aspectos nele apontados, analise o poema “Oswald morto”, de Ferreira Gullar. Não deixe de desenvolver breve comentário sobre a oposição entre modernismo e pós-modernismo – especificamente no tocante aos “nacionalismos” e aos “regionalismos”:
[...] É o poeta brasileiro. É o único poeta ‘brasileiro’. Isso não tem importância, pois no Ocidente os nacionalismos literários estão desaparecendo com a mesma rapidez com que em certas nações desapareceram os regionalismos. [...]
(Faustino, Mário. “A poesia ‘concreta’ e o momento poético brasileiro” [1957], p. 471)
Literatura Brasileira IV: 26 poetas hoje

Segue abaixo o link para realizar download de 26 poetas hoje, antologia publicada pelos meados dos anos 1970, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. Reunião de poetas importantes para a caracterização do período e fundamentais para a compreensão dos desdobramentos da linguagem poética depois de 1950... Dos 26 poetas escolhidos na antologia original, discutiremos apenas 3: Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Ana Cristina César e Wally Sailormoon. Discutiremos também, na aula do dia 25/10, a introdução e o posfácio da antologia, textos assinados pela organizadora. Para quem quiser imprimir somente os trechos de interesse para nossa disciplina, segue a indicação das páginas: 3-4; 9-15; 39-42; 139-142; 180-185; 256-263.
http://www.4shared.com/document/2hZaM3_S/26_Poetas_Hoje.html
Frase da semana

Se um homem sabe manter vivo o que é velho e reconhecer o que é novo, poderá, um dia, ensinar.
São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 483]
Literatura Brasileira I: AP2: Barroco
Universidade Federal do Ceará
Centro de Humanidades – Curso de Letras – Departamento de Literatura
Literatura Brasileira I – Professor: Marcelo Magalhães – 2ª ap
1. A partir da leitura do texto abaixo, e da análise de trechos de Prosopopeia, responda aos itens que seguem:
“A partir do Prólogo que marca ostensivamente o propósito encomiástico do poemeto, na verdade ‘prólogo-dedicatória’, verificamos a intenção de Bento Teixeira de distribuir em partes a matéria do seu canto de louvor a Jorge de Albuquerque Coelho. Constituído de noventa e quatro estrofes em oitava rima, o que se lê é, de fato, um esboço ainda mal alinhavado. Se o autor deu mesmo títulos a alguns grupos de estrofes – Narração, Descrição do Recife de Pernambuco, Canto de Proteu – podemos reconhecer no poemeto, por outro lado, as partes em que se divide o poema épico [...]. Sem dúvida camoniano (...), facilmente reconhecível, a partir da proposição (...), chega mesmo, mais de uma vez, a se opor a Camões ou a pretender corrigi-lo, como na invocação (...).
(Castello, José Aderaldo. Manifestações literárias do período colonial, p. 66-7)
a) Analise o “Prólogo” de Prosopopeia e aponte nele as marcas de seu propósito encomiástico. Como o poeta avalia sua própria obra diante da figura de Jorge de Albuquerque Coelho? Exemplifique sua resposta.
b) Analise a estrofe I de Prosopopeia, explicando seu caráter de proposição e demonstrando sua estrutura de influência camoniana (estrofes em oitava rima).
c) Compare a invocação de Prosopopeia com a de Os lusíadas e demonstre as diferenças entre uma e outra. Exemplifique sua resposta e procure justificar as diferenças apontadas.
2. Considerando os aspectos destacados no trecho abaixo, analise os textos de Botelho de Oliveira constantes na Antologia dos poetas do período colonial (pp. 13-4):
“Para muitos escritores do século XVII e grande parte do XVIII, a linguagem metafórica e os jogos de argúcia do espírito barroco eram maneiras normais de comunicar a sua impressão a respeito do mundo e da alma. E isto só poderia ser favorecido pelas condições do ambiente, formado de contrastes entre a inteligência do homem culto e o primitivismo reinante, entre a grandeza das tarefas e a pequenez dos recursos, entre a aparência e a realidade. Como a desproporção gera o senso dos extremos e das oposições, esses escritores se adaptaram com vantagem a uma moda literária que lhes permitia empregar ousadamente a antítese, a hipérbole, as distorções mais violentas da forma e do conceito. Para eles o estilo barroco foi uma linguagem providencial, e por isso gerou modalidades tão tenazes de pensamento e expressão que, apesar da passagem das modas literárias, muito delas permaneceu como algo congenial ao País.”
(Candido, Antonio. “Literatura de dois gumes”, p. 169)
3. Glauco Mattoso, espécie de herdeiro do satírico Gregório de Matos, define assim o que ele chama de “processoneto”: “O próprio conceito do soneto implica um paradoxo, pois, de um lado, a estrutura rígida cerceia a liberdade criativa do poeta e, de outro lado, essa aparente camisa-de-força estimula a habilidade do sonetista e testa seu domínio vocabular. Não por acaso vários autores tematizam o desafio da composição e a responsabilidade do sonetista em exemplos que poderiam ser chamados sonetos metalingüísticos, de ‘metassonetos’ ou, quando descrevem a própria construção, ‘processonetos’.” A partir desta consideração, responda os itens abaixo:
a) Identifique um exemplo de “processoneto” na Antologia dos poetas do período colonial, demonstrando seu caráter metalingüístico. Exemplifique.
b) Que relação se pode estabelecer entre o exemplo de “processoneto” analisado por você e o “Sermão da Sexagésima”, do padre Antônio Vieira? Explique e exemplifique.
4. Analise os sonetos de Gregório de Matos indicados na Antologia dos poetas do período colonial, apontando neles características essenciais do estilo barroco e distinguindo os gêneros desenvolvidos pelo poeta baiano. Fundamente suas considerações com trechos exemplares.
5. A partir da leitura das seções V e X do “Sermão da Sexagésima”, faça o que se pede nos itens abaixo:
a) Como Antônio Vieira caracteriza o que ele chama de “estilos modernos”? Como podemos relacionar o estilo culto, condenado por Vieira, e o próprio estilo literário do barroco? Não haverá contradição no fato de o maior orador do barroco luso-brasileiro condenar o cultismo? Procure responder aos questionamentos, justificando seus argumentos com trechos das seções indicadas.
b) Identifique, na seção X, dois aspectos temáticos que demonstrem a vinculação ideológica de Antônio Vieira com a Contra-Reforma católica. Não deixe de exemplificar cada um deles.
Observações:
- As citações e os exemplos devem ser retirados exclusivamente dos textos indicados para o estudo do conteúdo aqui avaliado.
- Os exemplos retirados aos textos devem ser transcritos no corpo das respostas integralmente.
- A cópia integral ou parcial de textos da internet como respostas das questões dessa avaliação levará à invalidação da mesma (nota zero).
- Utilize conceitos e noções dos textos estudados, mas não deixe de ser original e inventivo, desenvolvendo intuições que a leitura dos textos literários acaso tenha sugerido.
15.10.11
Gregório de Matos por Segismundo Spina


