3.2.12

Departamento de Literatura: seleção para monitoria



UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

Centro de Humanidades

Departamento de Literatura


     EDITAL N° 001/2012

O Chefe do Departamento de Literatura do Curso de Letras da UFC torna público para conhecimento dos interessados, que se acham abertas de 01 a 17 de fevereiro de 2012, das 08:00 às 12:00 e das 14:00 às 17:00 horas, as inscrições para seleção de bolsistas de monitoria, na secretaria do referido Departamento, para as seguintes disciplinas e Setores de Estudo abaixo indicados:
Teoria da Literatura
Literatura Brasileira
Literatura Portuguesa


OBS: o edital completo pode ser acessado em:
http://www.4shared.com/office/CCvCQ9pk/EDITAL_MONITORIA_2012.html

12.1.12

palhaço de classe: Literatura e sociedade contemporânea

palhaço de classe: Literatura e sociedade contemporânea

Literatura e sociedade contemporânea

A revista Cult de número 163 (novembro de 2011) traz uma entrevista com Luiz Eduardo Soares, sociólogo que se tornou midiático por, entre outras, ter participado do roteiro de Tropa de Elite. Critico a argumentação que o filme sustenta no debate sobre segurança, criminalidade e sistema penal, mas acho que Luiz Eduardo tem grande conhecimento do assunto e alguma sensibilidade para trazer a tona considerações importantes sobre a justiça no Brasil. Ele lançou recentemente um novo livro, intitulado Justiça, que aborda aspectos relacionados.
Retirei da entrevista um pequeno trecho, que me lembrou imediatamente o João Miguel da Rachel de Queiroz, do qual recortei um trecho que converge para reflexão sociológica tão premente nos dia de hoje. Primeiro, diz Eduardo Soares:

"É preciso reduzir a confusão entre justiça e punição. A prisão deveria ser limitada aos casos que envolvem violência, que exigem o afastamento das pessoas que representam ameaça. Por exemplo, o que é mais interessante para a sociedade: que o político corrupto fique preso, como uma espécie de vingança, ou que ajude a pagar o prejuízo que causou? A utilização do conhecimento e do trabalho das pessoas seria muito mais interessante para a sociedade e serviria igualmente para inibir a repetição dos crimes."

E o trecho da Rachel de Queiroz é o seguinte:

    – A gente pensando bem, você é que está certo, Seu João. Não há nada pior no mundo do que um homem viver preso. Diz que não há mal que não venha pra bem... Mas qual é o bem de se encarcerar um vivente? Só se for para vingança dos que morrem pela mão da gente... Mas que vantagem se pode tirar dessa vingança? E quando foi que Deus Nosso Senhor disse que vingança era bom? E o que me faz mais raiva é esse sofrimento desperdiçado... é como quem mata pra estruir... Quem é, no mundo, que ganha com cadeia? O governo fica com uns poucos de homens nas costas, pra sustentar, e ainda por cima tem que pagar os soldados de guarda. O patrão perde seu empregado, muita vez o seu homem de confiança. A terra deixa de ter quem limpe, quem broque, quem plante. Quantos alqueires de milho não se deixou de apanhar, por minha falta? E, agora, nós? De que serve para a gente a cadeia? Só pra se ficar pior... A gente aprende a mentir, a se esconder, a perder o sentimento, de tanto agüentar desaforo de todo o mundo. Perde o costume de trabalhar e, quando muito, faz esses servicinhos de mulher, assentado no chão... E, vivendo em tão má companhia, os que não são ruins de natureza, e fizeram uma besteira sem saberem como, acabam iguais aos piores... Me diga, Seu João, me diga, pelo amor de Deus, qual pode ser a vantagem para esse homem que morreu, e para o povo do Riachão, em me botarem apodrecendo aqui neste chiqueiro, meus filhos morrendo de fome, minha mulher se acabando para arranjar um cozinhado de feijão ou uma cuia de farinha? Por aquele infeliz ter ido para debaixo do chão, valia a pena se fazer esta desgraça toda a tanta gente? Tem lá Deus no céu nem na terra quem mande uma lei dessas? Não era muito mais direito que eu tivesse ficado trabalhando no meu canto, dando comida a esse bando de crianças que não tem culpa do que o pai fez, para serem elas que paguem? Não era muito melhor que me obrigassem a sustentar a viúva do finado e até a criar os filhos dele? Isso é que era o direito, isso é que era a lei boa!

[QUEIROZ, Rachel de. João Miguel. 15ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004. pp. 128-9]

12.12.11

Leituras do Naturalismo


     O romantismo foi o meio de expressão próprio da ascenção burguesa; naturalismo foi o de sua decadência. Ao cansaço ante a "monumentalidade retórica" do primeiro, opor-se-ia o sentido monótono do segundo, com a sua repetição vulgar, o seu esquematismo, a sua pobreza de meios. Ao romantismo vigoroso que possibilitaria a grandeza de Balzac e de Stendhal, suceder-se-ia a tentativa de romper a estreiteza da fórmula romântica pela busca de uma aproximação com o real, surgindo o realismo, de que se originaria o naturalismo, como prolongamento e deformação. Mas já os chamados realistas, isto é, aqueles que vinham reagir contra as normas românticas, denunciavam claramente os sintomas de decadência; Flaubert, no romance; Renan, na crítica religiosa; Taine, na história e na teoria da literatura. Os naturalistas não fizeram mais do que aprofundar e sistematizar, caracterizando-se claramente, aqueles sintomas. A simples busca de suportes científicos, destinados a conferir grandeza ao que não a podia conter em si mesmo, correspondia a uma confissão de fraqueza: era preciso encontrar, fora da arte literária, algo suplementar, que a reforçasse, que lhe consolidasse a estrutura, como que lhe constituindo os fundamentos. A aceitação de que a realidade se resumia naquilo que era perceptível pelos sentidos existia já entre os realistas que preludiam o naturalismo. Taine e Renan gostavam de proclamar-se "positivistas", no sentido de apegados a coisas provadas, a coisas visíveis, a coisas facilmente perceptíveis, dotadas, aparentemente, de uma lógica, a lógica formal, evidentemente. Suprimindo os outros aspectos, os que escapavam à visão simplista e direta, pensavam resolvê-los. Daí a confiança absoluta, não na ciência, como parecia, mas no estágio a que a ciência havia ascendido, dotando-o de um sentido absoluto. As certezas eram tão cegas que Renan chegaria ao absurdo de proclamar: "Hoje o mundo não encerra mais mistérios". No fundo, isso revelava o sentido de eternidade que a burguesia pretendia para o seu domínio e para tudo o que ele caracterizava, particularmente no campo ideológico, contrapondo-se à ânsia de mudança que estava implícita nas lutas sociais e no avanço, tormentoso e reprimido embora, da classe trabalhadora.

[SODRÉ, Nelson Werneck. O naturlismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. p. 18]

["Os jogadores" (1863), de Honoré Daumier]

Duas notas sobre o trecho acima: 1)o vício nosso de uma raça que temos de falar cultista, nosso lado doutor, de falar balofo e roçagante, que graçou em meio às culteranias do nosso barroco meio cana-meio ouro, e que no momento nacionalista do romantismo tanto se ufanou de sua própria pompa verborrágica, certamente teve a resistência necessária para se estender de algumas formas na literatura realista, e ainda no acesso naturalista (ou seja, a "monumentalidade retórica" não deixou de existir com a chegada do naturalismo); 2) o avanço da classe trabalhadora, ao menos em termos de espaço conquistado no campo da representação literária, só ganha efetivas condições de existência com o surto industrial de São Paulo, alimentado pela importação de mão de obra vindo do velho continente...

enquanto não chegam as férias...

     
     A preguiça não é um mito, é um dado fundamental e quase natural da situação escolar. Por quê? Porque a escola é uma estrutura de coação e a preguiça é um meio, para o aluno, de agir sobre essa coação. A aula possui fatalmente uma força de repressão, quanto mais não seja porque aí se ensinam coisas de que o adolescente não tem forçosamente o desejo. A preguiça pode ser uma resposta a essa repressão, uma tática subjetiva para assumir o aborrecimento, para manifestar a consciência que dela tem e assim, de uma certa maneira, dialetizá-la. Essa resposta não é direta, não é uma contestação aberta, pois o aluno não tem meios para responder de frente às coações; é uma resposta desviada que evita a crise. Em outras palavras, a preguiça escolar tem um valor semântico, faz parte do código das aulas, da língua natural do aluno.
     Se observarmos a etimologia, nota-se que, em latim, piger, o adjetivo (já que preguiça vem de pigritia), quer dizer "lento". Esta é a faceta mais negativa, mais triste, da preguiça e consiste, então, em fazer as coisas, mas mal, contra a vontade, satisfazer a instituição dando-lhe uma resposta, mas uma resposta que se arrasta.
     Em grego, pelo contrário, preguiçoso diz-se argos, contração de a-ergos, pura e simplesmente "que não trabalha". O grego é muito mais franco que o latim.
     Já neste pequeno debate etimológico se perfila a possibilidade de uma certa filosofia da preguiça.
     Fui professor de liceu apenas um ano. Não é daí que formei uma idéia da preguiça escolar, mas sim da minha própria experiência de aluno. Volto a encontrar espontaneamente a preguiça escolar, mas a título de metáfora, na minha vida atual, que em princípio não tem nada a ver com a de um aluno: muitas vezes, diante das tarefas que mais me aborrecem, como o correio, manuscritos por serem lidos, resisto e digo para comigo mesmo que não consigo fazê-los, exatamente como o aluno que não é capaz de fazer os deveres. Trata-se, nesses momentos, de uma experiência dolorosa da preguiça, na medida em que é uma experiência dolorosa da vontade.

[Barthes, Roland. "Ousemos ser preguiçosos". Entrevista concedida a Christine Eff, publicada em Le Monde-Dimenche,
16 de setembro de 1979. In: _______. O grão da voz. Tradução Anamaria Skinner.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 367-8]

3.12.11

Literatura Brasileira I: sobre o conteúdo da AF

Um dos aspectos que deve estar bem compreendido para o conhecimento efetivo do período que estudamos na disciplina é sua evolução poética: os desenvolvimentos da poesia efetivados desde Gregório de Matos até o surgimento de Gonçalves Dias. Ou seja, é preciso compreeder claramente as peculiaridades de cada um dos três momentos (barroco, arcádico e romântico), sabendo distinguir o que há de continuidade entre um momento e o seguinte, assim como percebendo as rupturas fundamentais entre um e outro. Sendo assim, deveremos ter a compreensão, por exemplo, de que a poesia mestiça de Gregório de Matos tem uma familiaridade com a poesia romântica brasileira, que idealizará a formação mestiça brasileira. Sobre este traço da poesia lírica do "Boca do Inferno", e evocando a riqueza da galeria feminina do poeta baiano, vale citarmos Segismundo Spina: "O nacionalismo da sua poesia lírica reside justamente nesse hinário crioulo, nesses cantos tropicais às mulatinhas lindas como as aleluias e garridas como as páscoas" (In: COUTINHO, Afrânio (Org.). A literatura no Brasil. Vol. 2, p. 116).

27.11.11

ainda sobre Alencar

Apresentação da obra/vida de José de Alencar, em vídeo produzido pala TV Escola. Direção de Luiz Fernando Ramos.

O estilo de Iracema, por Machado de Assis

O estilo do livro é como a linguagem daqueles povos: imagens e ideias, agrestes e pitorescas, respirando ainda as auras da montanha, cintilam nas cento e cinquenta páginas da Iracema. Há, sem dúvida, superabundância de imagens, e o autor, com uma rara consciência literária, é o primeiro a reconhecer este defeito. O autor emendará, sem dúvida, a obra empregando neste ponto uma conveniente sobriedade. O excesso, porém, se pede a revisão da obra, prova em favor da poesia americana, confirmando ao mesmo tempo o talento original e fecundo do autor. Do valor das imagens e comparações, só se pode julgar lendo livro, e para ele enviamos os leitores estudiosos.

[Machado de Assis. In: Alencar, José de. Iracema: lenda do Ceará. Biografia, introdução e notas
de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997]

{para conferir texto completo, ver http://pt.wikisource.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Alencar:_Iracema}

Sobre o uso do símile em Iracema

[...]
Qualquer leitor mais atento notará que o símile, isto é, a comparação, é abundantemente usado; alguém, dispondo de pendores estatísticos, poderia levantar, desde logo, o número assoberbante de símiles em relação às outras figuras, não só de comparação, como seja a metáfora, ou, ainda, por justaposição, a metonímia, mas em relação, também, a figuras de qualquer espécie. Será bom, por isso, que nos detenhamos um pouco sobre os símiles.
A primeira observação a fazer é a raridade das comparações simples do tipo “passa como a flecha”. Na verdade a comparação se prolonga, várias vezes se transforma em alegoria. Tomemos, ao acaso, um exemplo em cada um dos três primeiros capítulos: “a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo” (1); “o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva” (2); “então seu olhar como o do tigre, afeito às trevas, conheceu Iracema” (3). Note-se, no primeiro, as asas do condor que é negro como as nuvens tempestuosas, as asas cujo aceno sugere os ventos ainda não desencadeados; o “fosca”, reproduzindo bem a luz baça do céu de tempestade, e, afinal, o oceano que se vai tornar perigoso durante a tormenta, desde logo denominado “abismo”. No segundo caso, a delicadeza do símile começa naquele “aljôfar” metafórico, sugerindo pérolas ou diamantes, e se prolonga no verbo “roreja” que antecipa a imagem da mangaba coberta de orvalho, rosada, que é sinal de amadurecimento e subentende a doçura extrema, que é da mangaba e é de Iracema. No terceiro, a idéia de tigre confere a Araquém não só o olhar felino, perspícuo na treva, mas atributos de coragem altiva que irá demonstrar mais tarde. Se o leitor acompanhou com interesse este comentário, e deseja um exemplo de símiles que se prolongam em alegorias, pode ir ao capítulo 27, nos parágrafos em que Martim é comparado ao imbu; ou ao fim dos capítulos seguintes, quando se fala do jacarandá. São duas entre várias.
[...]

(In: Alencar, José de. Iracema: lenda do Ceará. Biografia, introdução e notas
por M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997)
[ilustração: Iracema (1881), óleo de José Maria de Medeiros]