1.11.14

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA DE SILVA ALVARENGA




            A obra de Silva Alvarenga foi toda escrita na segunda metade do século XVIII, tanto em Portugal quanto no Brasil, e se situa estética e ideologicamente no Neoclassicismo de feição arcádica.
            De maneira geral, o Neoclassicismo se empenhou num esforço para "restaurar o bom gosto perdido" após anos de influência dos modelos poéticos barrocos, muitas vezes identificados com a Espanha e seu grande poeta, Gongora (Silva Alvarenga chama-o de "sombrio espanhol", autor de "góticos enigmas"). Já desde o início do século XVIII havia mostras de desgosto com os "excessos" da poesia de caráter seiscentista, e a reação vai ganhando mais espaço e corpo com a publicação de O verdadeiro método de estudar, de Luís Antônio Verney (1746-47), com a fundação da Arcádia Lusitana (1756) e com a reforma da Universidade de Coimbra promovida pelo Marquês de Pombal (1772). À época em que Silva Alvarenga começa a escrever, está plenamente configurada a proposta neoclássica: retomada dos modelos clássicos, antigos e quinhentistas, e crítica constante da poesia, que se identifica com a expressão racional do pensamento. "Rien n'est beau que le vrai; le vrai seule est amaible", escreveu Boileau, cuja Arte Poética é modelo para vários autores da época.
            [...]

(Morato, Fernando. "Introdução". In: Alvarenga, Manuel Inácio da Silva. Obras Poéticas.
São Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. XXXII-XXXIII)


19.10.14

Literatura fundamental: Stephane Mallarmè


A pesquisadora Rosie Mehoudar fala sobre a obra e a vida do poeta francês Stephane Mallarmè,
um dos gurus do movimento simbolista, se é que ele existe
(como questionam Paul Valéry e Paulo Leminski).



7.10.14

Literatura fundamental: Arthur Rimbaud

Mais uma edição do programa Literatura Fundamental, projetado neste picadeiro, agora sobre a obra de Arthur Rimbaud, por Maurício Salles Vasconcelos. Aqui mesmo reproduziu-se anteriormente a edição dedicada a Flores do Mal, conduzida por Álvaro Faleiro. Confira para conhecer mais sobre "um vagabundo genial"  que foi crucial para a revolução moderna da poesia ocidental.


3.10.14

Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira

Para quem deseja imaginar a atuação de Padre Antônio Vieira com o auxílio de imagens em movimento, vale conferir o filme Palavra e Utopia (2000), do cineasta português Manoel de Oliveira.



O discurso engenhoso de Padre Antônio Vieira

         
              [...]
          A palavra "engenhoso" me parece muito própria para indicar o gênero do discurso de que tratarei aqui. No sentido em que a emprego, é uma palavra muito frequente no século XVII em Portugal, na Espanha e na Itália. O Pe. Bouhours, um dos teóricos do discurso "clássico", a usou, a seu modo, para caracterizar especialmente a maneira de expressão que condenava nos italianos e espanhóis, chamados, hoje, por nós, de "barrocos". Poderia eu também escolher a palavra "agudo" que se encontra, ao lado de engenhoso, no título do célebre trabalho de Gracían [trata-se da Arte de ingenio, tratado de la agudeza]. Mas "agudo" e "agudeza" parecem-me convir melhor aos resultados que os processos "engenhosos" procuram obter. Todo discurso "engenhoso" se ordena em função de uma "agudeza", que ele prepara e serve. A palavra "barroco", que também poderia ser usada, engloba um conjunto de atitudes e processos que ultrapassam largamente o campo semântico de "engenhoso". E o que eu desejaria mostrar, sobretudo, é que o essencial do barroco, no que se refere à literatura, reside justamente no "discurso engenhoso".
              [...]

(Saraiva, Antonio J. O discurso engenhoso: estudos sobre Vieira e outros autores barrocos.
São Paulo: Perspectiva, 1980, p. 8)

30.9.14

Por que Antônio Vieira é importante?

Alcir Pécora fala sobre Antônio Vieira, o "imperador da língua portuguesa", como o qualifica Fernando Pessoa. Vieira não foi, como circula por certo senso comum na rede, um intelectual, pois a noção de intelectual surgiria muito depois do século do Barroco, o XVII, somente no final do século XIX. Vieira foi combativo padre da Companhia de Jesus e se envolveu, como indica Pécora, em todas as grandes questões políticas, ideológicas, religiosas e mesmo econômicas, refletindo sempre agudamente sobre essas questões. Vale como interessante introdução à leitura dos sermões de Padre Antônio Vieira.


29.9.14

Barroco de Belém

Não sou fotógrafo razoável, mas eis que algumas imagens escapam como válidas da viagem a Belém. Cidade viva, rica e surpreendente, na qual se não houvesse nada que encantasse a vista já teria muito para encantar o espírito, que são suas imensas águas. As imagens que seguem tentam apresentar um pedaço mínimo da beleza das igrejas da cidade e de suas feiras coloridas. Para mais, só indo a Belém.






19.9.14

As variedades de Proteu

 
Procurando imagens de Proteu, entidade mitológica dos mares, encontrei algumas coisas interessantes. Uma delas é As variedades de Proteu, ópera editada em 1737, com libreto de António José da Silva e música de António Teixeira. António José da Silva é talvez mais conhecido pelo epíteto de o Judeu, condição que aliás o levaria a ser assassinado (!) pela Inquisição em 1739, com apenas 34 anos. A ópera do Judeu é ainda um tanto barroca, ainda que tenha sido escrita em plena efervescência neoclássica. Minha busca por Proteu relacionava-se a Bento Teixeira e sua Prosopopeia, poema em que o filho de Poséidon e de Tétis narra os grandes feitos de Jorge d'Albuquerque Coelho. Ao lado uma gravura que ilustrava o libreto da ópera As variedades de Proteu, e abaixo o link para uma pequena amostra da música composta para ela.


http://www.youtube.com/watch?v=8peKNzW70FU

16.9.14

5 sonetos de Gregório de Matos





Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-nos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.



O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?

Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d'outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo.





Triste Bahia! Oh quão dessemelhante
Estás, e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti tocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado
Tanto negócio, e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!



Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.

Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.

Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.

Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.



É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?


14.9.14

Para ler a poesia engenhosa de Botelho de Oliveira


Para conhecer melhor a poesia de Música do Parnaso (1705) e os fundamentos de À Ilha da Maré, composições poéticas do baiano Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), pode consultar alguns estudos de Ivan Teixeira, autor de Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (Edusp, 1999), estudo amplo sobre a produção poética do neoclassicismo no Brasil. Seguem os links para acesso a três textos de extensão variada, sendo o primeiro deles uma pequena nota de jornal apresentando o poeta Botelho de Oliveira e o último um artigo sobre À Ilha da Maré. O segundo estudo é um ensaio mais detalhado sobre a poesia de  
Música do Parnaso.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1908200121.htm

http://www.revistas.usp.br/revusp/article/viewFile/35284/38004

http://www.academia.org.br/abl/media/Revista%20Brasileira%2072%20-%20PROSA.pdf