A figura de Augusto dos Anjos (1884-1914), poeta paraibano que representa uma das forças máximas, na produção poética, do momento de preparação da chamada "revolução modernista", é constantemente evocada pela leitura que fazemos de alguns de seus versos. Logicamente que nesta leitura entra certo sabor romântico: o de encontrar na fisionomia do escritor traços característicos equivalentes à produção literária do mesmo. O poeta paraibano do Eu (1912), que Alfredo Bosi qualifica como sendo "romântico lato sensu", dificilmente escaparia a esse tipo de leitura -- seja por sua aparência patética marcante, seja por sua poesia peculiaríssima no momento pré-modernista. O fato é que o depoimento de Orris Soares, amigo de Augusto dos Anjos, nos remete a uma imagem que figura em um dos poemas de Charles Baudelaire, "O Albatroz". Ouçamos primeiramente o depoimento de Orris Soares e, na sequência, as palavras sugestivas do poeta francês que revolucionou a poesia ocidental em meados do século XIX (Le fleurs du mal é de 1857).
"... de magreza esquálida, -- faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. [...] Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. Na omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro. [...] um pássaro molhado, todo encolhido nas asas, molhado de chuva" (Soares, Orris. "Elogio de Augusto dos Anjos).
Às vezes,
por prazer, os homens da equipagem
Pegam um
albatroz, imensa ave dos mares,
Que
acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a
singrar por glaucos patamares.
Tão logo
o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca
do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa
pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas
em que fulge um branco imaculado.
Antes tão
belo, como é feio na desgraça
Esse
viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o
cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a
coxear, imita o enfermo outrora alado!
O Poeta
se compara ao príncipe da altura
Que
enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado
no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
(Charles Baudelaire. Tradução de Ivan Junqueira)
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