31.10.13

dia do Saci e do Drummond

Hoje, dia 31 de outubro, dia D de Drummond, data de nascimento do poeta de Itabira e de tantos tempos presentes, e do Saci, personagem fundamental de nossa cultura. Para festejar lendo, vale conferir o texto a seguir, crônica escrita por Drummond em 1972, falando de Tom Jobim e matentapereira, e visagem,
e peitica, e muito mais. Evoé!




Tom e o pássaro


          Pássaro feliz é (devia ser) o matintapereira. Pois não ganhou canção de Valdemar Henrique, na voz de Mara? Mara, irmã do compositor, saudade no ouvido da gente, mas podia também ser Nara Leão. Como se não bastasse, é gratificado agora com outra canção, e de quem? Do muito ilustre e raro maestro Antônio Carlos Jobim, letra e música, esta em parceria com Paulinho Pinheiro, já divulgada pelo José Carlos Oliveira. É a glória.
         O mal-agradecido nem se dá conta disto, sempre naquele assobio estridente, monótono, embruxado, no meio da noite brasileira. E se a gente vai ver, seguindo o rastro sonoro, cadê passarinho? O diabo sumiu. Diabo? Não é à-toa que lhe chamam também saci. Tom pegou-lhe bem o jeito:
Quero ver, olerê olará,
você me pegar.
          Com a diferença de que saci é alegre, suas peraltices revelam o fundo lúdico do negrinho, que nunca chegam às tenebrosas maquinações: ele apaga fogo na cozinha, espalha boiada, assusta gente nos caminhos. E ri. Até a perna-só, de que se serve, é gozada; o cachimbo, idem. Já o saci-voador é triste, agourento, não se permite o bom humor negro. Pia soturno e some. A sabedoria do povo aconselha que se diga assim para ele, no entrevoo do sumiço:
          - Escuta aqui, amizade, passa lá em casa amanhã para apanhar tabaco, tá?
          Dia seguinte, já sabe: quem bater primeiro à porta da casa é o pobre homem ou mulher que à noite se converte em passarinho, e de manhã volta à condição humana, em busca de fumo para a cachimbada. Nunca mais ninguém quer saber dele ou dela. Pudera: virou matintapereira.
          Dizem, não sei se é mentira, mas na Amazônia, matinta quando pia, você deve cobrir as mãos com pano preto, de outra cor não seve; do contrário, as unhas emitem uma espécie de foguinho que espanta a visagem anunciada pelo pio. Cobrindo-as, você vê a coisa estranha, que no Maranhão é a velha Caapora, mas isso depende de ter coragem para ver coisas estranhas. O melhor é não ver nada, não ir atrás do matinta. Agora então, com a abertura da Transamazônica, sabe-se lá em que toco de pau ele se meteu?
           É tão safado que se disfarça sob os codinomes mais diversos e para cada ouvido oferece uma onomatopeia, em cada mato do Brasil. Carlinhos Oliveira dá-lhe sete nomes: além de matintapereira e da variante matita, informa que ele responde (ou antes, não responde) por fem-fem, sem-fim, peixe-frito, tempo-quente, saci. Valendo-me de Flávia da Silveira Lobo, doutora em bichos nacionais, posso acrescentar os seguintes: crispim, secofico, peito-ferido, peitica, piririguá, sede-sede, roceiro-planta. Antenor Nascentes grafa matim-taperê, segundo a lição de Basílio de Magalhães: elo na corrente de transformações populares, que vai de saci-pererê a matinta-pereira, nome quase de gente, e gente que se saúda na rua: Oi, Matinta. Falta só chamá-lo de Matinta Pereira da Silva, como lembrou Barbosa Rodrigues na Poranduba. De qualquer maneira, dispõe de tantas identidades que, no dia em que os bichos pagarem Imposto de Renda, é bem capaz de escapar do CPF - a menos que lhe preguem não uma, porém, 40 etiquetas.
          A canção de Tom devia enfunar de orgulho o papo de matinta. Não ouvi a música, mas se é de Tom é bom, garante Drummond. A letra, um esvoaçar de nomes e formas em torno de João (Guimarães Rosa), que se não era bruxo não sei o que fosse, talvez a própria bruxaria em túnica de linguagem. Há no poema um jogo de esconde-esconde que vai mostrando o sem-fim e o sem-para das coisas, das pessoas, dos pássaros. Tudo voa nas asa de matinta, que não é mais ave sinistra, é o gira-gira do mundo, a ave que ninguém pega, o sonho que ninguém acaba de sonhar. Puxa, matinta, mas você, hem? Nem reparou que o nosso Tom, olerê olará, voa mais alto e mais longe, e ninguém o segura mesmo.



Texto de Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil 
22 de abril de 1972

28.10.13

dia do servidor público





Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras –
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança.

[...]

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.



[transcrição de manuscrito de João Cabral de Melo Neto, 29 de setembro de 1943
In Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles]


22.10.13

Raisonneur no teatro brasileiro

Eis um trecho do verbete "Raisonneur", do Dicionário do Teatro Brasileiro: temas, formas e conceitos. Este verbete é de autoria de João Roberto Faria.


Ilustração de Angelo Agostini.
Palavra francesa que designa um tipo de personagem que representa, no interior de uma peça, o ponto de vista do autor sobre um determinado assunto ou, de maneira mais abrangente, o ponto de vista da sociedade. De um modo geral, é uma personagem que acompanha o destino do protagonista – ou mesmo de uma personagem secundária – para comentar suas escolhas e atitudes, terminando sempre por emitir algum tipo de comentário edificante ou críticas e fundo moralizador. Como observa Patrice PAVIS, “esse tipo de personagem, herdeiro do coro trágico grego, aparece sobretudo na época clássica, no teatro de tese e na forma de peças didáticas”.
No teatro brasileiro, a presença do personagem raisonneur foi comum nos chamados dramas de casaca ou comedias realistas, principalmente entre os anos 1855 e 1865. [...] O melhor exemplo de personagem raisonneur brasileiro é Meneses, o jornalista de Asas de um Anjo, de José de ALENCAR. [...] Meneses, como o definiu o próprio ALENCAR é “a razão social encarnada em um homem”(...).

17.10.13

A redenção do picadeiro e de outras manifestações de massa


 Lendo Sigfried Kracauer, encontro este pensamento que acalenta o espírito deste "palhaço de classe":

"Com o declínio da velha ordem social, colapsam os limites com os quais a estética clássica havia nervosamente segregado a arte do picadeiro da arte elevada."

A "arte do picadeiro" é justamente a arte circense, que aliás foi um dos elementos incorporados à cultura nacional pelo modernismo no Brasil. Antes da renovação cultural modernista, a cultura brasileira "oficial" rejeitava "nervosamente" a arte do circo de suas expressões consideradas legítimas.

Registro do "banquete antropofágico" realizado por artistas modernista em 1929, em homenagem ao palhaço Piolin.
O livro de Sigfried Kracauer que inicio a ler é O ornamento da massa, que me atrai particularmente pelos estudos sobre fotografia e cinema na primeira metade do século XX europeu. Adiante voltarei a este ensaista instigante sob as luzes deste picadeiro, para mais e melhores considerações. Auf Wiedersehen!

16.10.13

Malazarte e a estética irracionalista




Mais um artigo sobre a produção teatral do início do século XX no Brasil, desta vez na figura de Graça Aranha. "Malazarte e a estética irracionalista", de André Tezza Consentino, foi publicado na Revista de Letras da Universidade Federal do Paraná, e trata de Malazarte (1911), drama em três atos de Graça Aranha, relacionando as ideias nele expostas com a filosofia irracionalista. O artigo de Tezza Consentino nos leva à reflexão sobre a teatralidade do texto de Graça Aranha, o que nos pode remeter também a Canaã (1902), romance que tornou o escritor maranhense mais conhecido na vida literária brasileira do início do novecentos. Para acessar o artigo, clique no link abaixo:

http://www.letras.ufpr.br/documentos/pdf_revistas/consentino.pdf

15.10.13

João do Rio e a crônica social no palco


O título acima é do artigo de autoria de Elen de Medeiros, não apenas sobre a dramaturgia de João do Rio, mas também sobre o contexto teatral brasileiro do início do século XX. Elen de Medeiros destaca a temática inovadora de João do Rio, ainda que suas peças apresentem uma precária teatralidade. Além disso, trata do teatro de vertente simbolista no Brasil e no mundo. Leitura obrigatária para quem deseja compreender melhor a literatura da peculiar belle époque brasileira, assim como a produção de João do Rio, cronista atento às mudanças de então. Para acessar o artigo, o link é o seguinte:
files.letraeato.com/200000167-f2f15f3eb0/MEDEIROS,%20E..pdf

14.10.13

imaginário expressionista



O Grito (1893), de Edvard Munch.

Ecce Homo (1925), de Lovis Corinth.

Fränzi perante uma cadeira talhada (1910), de Ernst Ludwig Kirchner.

Uma das imagens do erotismo dilacerado de Egon Schiele (1890-1918).

Fotograma de O gabinete do dr. Caligari (1920), filme de Robert Wiene.
A boba (1915-16), de Anita Malfatti.


12.10.13

"Na escuridão negra": ontem e hoje


          No dia 9 de julho de 1896, o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro anunciava a primeira exibição do primitivo cinematographo, início da história do cinema no Brasil. Depois de descrever o espetáculo e o local para exibi-lo, na tradicional rua do Ouvidor, o artigo precavia assim os prováveis interessados:

Cena de Viagem à lua (1902), de Georges Méliès.
         "O espetáculo é curioso e merece ser visto, mas aconselhamos aos visitantes a se acautelarem contra os gatunos. Na escuridão negra em que fica a sala durante a visão, é muito fácil aos amigos do alheio o seu trabalho de colher o que não lhes pertence. A polícia, que tão bem os conhece, poderia providenciar no sentido de impedir-lhes a entrada naquele recinto."

         Ontem tive a má sorte de encontrar com um "amigo do alheio", que me levou computador e celular, depois de um dia extenso de trabalho. O gatuno ainda tripudiou, depois de conferir o que havia na carteira, que ele rapou e devolveu: "Mais liso que eu, professor!". Ri sem graça, lamentando a "escuridão negra" que graça por aí...

10.10.13

Sobre vanguardas e modernismo brasileiro I: futurismo


Il Marinetti.
Será certamente o futurismo a primeira das vanguardas europeias que por aqui aporta, e mais especificamente pelo porto de Santos a caminho de São Paulo. Quando retorna em 1911 de sua primeira viagem à Europa, Oswald de Andrade traria na bagagem notícias de Marinetti, criador do Futurismo, que publicara em 1909 o primeiro manifesto futurista ("O Futurismo"), seguido por tantos outros manifestos conferências polêmicas intervenções. Para se ter uma ideia da curiosidade que cercava a pregação de Marinetti, basta dizer que no mesmo ano em que se publicou aquele primeiro manifesto em Paris, foi ele transcrito no Jornal de Notícias, da Bahia, na edição de 30 de dezembro de 1909 (o original fora publicado no Le Figaro, na edição de 20 de fevereiro daquele ano). "Em 1920 já é grande, em São Paulo, o consumo da palavra futurista", afirma Mário da Silva Brito no livro fundamental sobre os preparativos da instalação do modernismo no Brasil, Antecedentes da Semana de Arte Moderna (no capítulo intitulado "Os 'futuristas de São Paulo"). Em maio de 1921, Oswald de Andrade publica artigo no Jornal do Comércio, intitulado "Meu poeta futurista", no qual comenta sobre os versos ainda inéditos de Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, livro inaugural da poesia modernista paulistana. A pecha de "futurista" não agradaria ao autor de Pauliceia desvairada, que responderia pela imprensa e no próprio "Prefácio interessantíssimo", programa poético daquele livro inaugural. É de lá que retiro o seguinte trecho:
"Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. / Tenho pontos de contato como o
La farola, de Giácomo Balla.
futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiriam minhas ideias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta grita."
É esclarecedor ainda o testemunho de Lima Barreto, que em julho de 1922 registraria o recebimento da revista Klaxon, primeira publicação periódica do modernismo paulista, nos seguintes termos: "esses moços tão estimáveis [os responsáveis pela revista, considerada futurista por Lima Barreto] pensam mesmo que nós não sabíamos disso de futurismo? Há vinte anos, ao mais, que se fala nisto e não há quem leia a mais ordinária revista francesa ou o pasquim mais ordinário da Itália que não conheça as cabotinagens do 'il Marinetti'."
Parte do "Manifesto técnico da literatura futurista" pode ser lido no seguinte endereço: http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2740978
"O Futurismo", "Manifesto técnico da literatura futurista" e seu "Suplemento" estão estampados no livro Vanguardas europeias e modernismo brasileiro, de Gilberto de Mendonça Teles.


9.10.13

A Bela Madame Vargas, de João do Rio





Eis o link para acessar o arquivo (pdf) de A Bela Madame Vargas, peça em três atos de João do Rio:

http://www.nead.unama.br/site/bibdigital/pdf/oliteraria/409.pdf

Faremos a leitura da peça no próximo encontro do grupo de estudos "O texto e a cena teatral no Brasil", que acontecerá no dia 16 de outubro, na sala 2 do Departamento de Literatura. Até lá.

Imagens do teatro brasileiro: modernismo



Capa de Adão, Eva e outros membros da família, de Alvaro Moreyra, peça que será lida e debatida no grupo de estudos "O texto e a cena teatral no Brasil".

Postal do lançamento de Batalha da Quimera, iniciativa de Renato Vianna, 1922.

Desenho de Roberto Rodrigues para o Teatro da Caverna Mágica, iniciativa de Renato Vianna.

Capa da primeira edição de O rei da vela, com desenho de Oswald de Andrade Filho.